Discriminação racial e saúde: uma revisão sistemática de escalas com foco em suas propriedades psicométricas (Racial discrimination and health: a systematic review of scales with a focus on their psychometric properties)

João Luiz Bastos, Roger Keller Celeste, Eduardo Faerstein, Aluísio JD Barros

Resumo


A literatura abordando o uso da variável raça no estudo de causas das iniqüidades raciais em saúde é caracterizada por uma profunda discussão sobre os problemas envolvidos na interpretação de associações estatísticas como relações de causa e efeito. Em contrapartida, um número menor de estudos tem abordado o uso de escalas de discriminação racial para estimar os efeitos deste tipo de tratamento injusto sobre a saúde, e nenhum deles realizou uma avaliação abrangente das propriedades psicométricas destes instrumentos. O objetivo deste trabalho foi revisar sistematicamente a literatura sobre escalas de discriminação racial, com vistas a descrever seus processos de desenvolvimento e prover uma síntese de suas propriedades psicométricas. Uma busca eletrônica nas bases de dados PubMed, LILACS, PsycInfo, Scielo, Scopus e Web of Science foi realizada sem qualquer restrição, utilizando-se vocabulário livre e controlado. Após identificar 3.060 referências, 24 escalas foram incluídas na revisão. Apesar de a discriminação racial constituir um tema de relevância internacional, 23 (96%) escalas foram desenvolvidas nos Estados Unidos. A maior parte dos estudos (67%, N = 16) foi publicada nos últimos 12 anos, documentando tentativas iniciais de desenvolvimento de escalas, com uma escassez de investigações sobre o refinamento ou a adaptação trans-cultural destes instrumentos. As propriedades psicométricas relatadas foram boas; dezesseis entre todas as escalas apresentaram confiabilidade acima de 0,7, 19 entre 20 instrumentos confirmaram, pelo menos, 75% das hipóteses relacionadas aos construtos avaliados e a estrutura dimensional foi corroborada por análises fatoriais em 17 de 21 escalas. Entretanto, pesquisadores independentes raramente examinaram estas escalas. O uso de terminologia racial e como isto pode afetar o relato de experiências de discriminação racial não foi extensamente avaliado. A necessidade de considerar outras formas de tratamento discriminatório como exposições danosas à saúde igualmente importantes e a idéia de um instrumento universal, adaptável a diferentes contextos socioculturais, deveriam ser discutidas entre os pesquisadores deste emergente campo de investigação.

 

ABSTRACT – The literature addressing the use of the race variable to study causes of racial inequities in health is characterized by a dense discussion on the pitfalls in interpreting statistical associations as causal relationships. In contrast, fewer studies have addressed the use of racial discrimination scales to estimate discrimination effects on health, and none of them provided a thorough assessment of the scales’ psychometric properties. Our aim was to systematically review self-reported racial discrimination scales to describe their development processes and to provide a synthesis of their psychometric properties. A computer-based search in PubMed, LILACS, PsycInfo, Scielo, Scopus and Web of Science was conducted without any type of restriction, using search queries containing free and controlled vocabulary. After initially identifying 3,060 references, 24 scales were included in the review. Despite the fact that discrimination stands as topic of international relevance, 23 (96%) scales were developed within the United States. Most studies (67%, N = 16) were published in the last 12 years, documenting initial attempts at scale development, with a dearth of investigations on scale refinements or cross-cultural adaptations. Psychometric properties were acceptable; sixteen of all scales presented reliability scores above 0.7, 19 out of 20 instruments confirmed at least 75% of all previously stated hypotheses regarding the constructs under consideration, and conceptual dimensional structure was supported by means of any type of factor analysis in 17 of 21 scales. However, independent researchers, apart from the original scale developers, have rarely examined such scales. The use of racial terminology and how it may influence self-reported experiences of discrimination has not yet been thoroughly examined. The need to consider other types of unfair treatment as concurrently important health-damaging exposures, and the idea of a universal instrument, which would permit cross-cultural adaptations, should be discussed among researchers in this emerging field of inquiry.

Key words: Race Relations; Prejudice; Causality; Questionnaires; Psychometrics


Palavras-chave


Relações raciais; Preconceito; Causalidade; Questionários; Psicometria

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Saúde & Transformação Social/Health & Social Change, ISSN 2178-7085, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil.