Doenças negligenciadas: revisão da literatura sobre as intervenções propostas

Rodrigo Silveira Vasconcelos, Douglas Francisco Kovaleski, Zeno Carlos Tesser Junior

Resumo


As doenças negligenciadas, segundo a OMS, são 17 doenças infecciosas que se disseminam em meios de precária estrutura sanitária, condição de moradia, alimentação inadequadas, e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Estas são doenças negligenciadas pelo capital, isto por sua irrelevância enquanto nicho de rendimento econômico, conferindo elevada morbidade às populações acometidas. Este artigo se propõe a analisar o tema das doenças negligenciadas a partir das intervenções propostas para seu controle e erradicação na perspectiva da determinação social do processo saúde/doença. Foi realizada uma revisão narrativa da literatura acerca das propostas de intervenção em “Doenças Negligenciadas” publicados na revista The Lancet. As primeiras iniciativas de intervenção em doenças negligenciadas foram propostas pela Fundação Rockefeller no início do século XX, que sustentava um modelo de saúde pública orientado para preparar regiões para investimentos financeiros e aumento da produtividade, passando pelos característicos programas internacionais de distribuição de medicamentos no pós II Guerra Mundial, até iniciativas recentes de colaboração interinstitucional. Quando se compreende que programas de intervenção em doenças negligenciadas foram sendo propostos à medida que estas moléstias se apresentavam como obstáculos ao desenvolvimento econômico, percebe-se que a heterogeneidade desses programas foi consequência natural desse processo. Essas doenças são consequência de um processo de desenvolvimento desigual que determina populações em extrema pobreza. A atuação limitada proposta pela comunidade internacional, desde o início do século XX, parte de uma perspectiva curativa que, quando age em prol de populações marginalizadas, o faz de forma a submetê-las aos mínimos toleráveis. A solução passa por construir, junto aos movimentos sociais, pautas correspondentes aos anseios da população.

Abstract: Neglected diseases, according to WHO, there are 17 infectious diseases that spread in precarious means, sanitary structure, housing conditions, inadequate nutrition, and poor access to health services. These diseases are neglected by capital, that by its irrelevance as niche economic performance, giving high morbidity to the affected populations. This article aims to analyze the issue of neglected diseases from the proposed interventions for their control and eradication in the context of the social determination of the health / disease process. A narrative review of the literature was conducted about the intervention proposals in "Neglected Diseases" published in The Lancet. Early intervention initiatives for neglected diseases were proposed by the Rockefeller Foundation in the early twentieth century, which held a public health-oriented model to prepare regions for investments and increased productivity, through the characteristic international drug distribution programs in post II World War II until recent initiatives of inter-institutional collaboration. When one understands that intervention programs for neglected diseases were being proposed as these diseases presented themselves as obstacles to economic development, it is clear that the heterogeneity of these programs was a natural consequence of this process. These diseases are the result of uneven development process that determines population in extreme poverty. The limited action proposed by the international community since the early twentieth century, part of a healing perspective that, when acting on behalf of marginalized populations, it does so in order to subject them to the minimum tolerable. The solution is to build, together with the social movements, corresponding guidelines to popular expectations.

Keywords: Neglected Diseases, Public Health; Developing Countries


Palavras-chave


Doenças Negligenciadas; Saúde Pública; Países em desenvolvimento.

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